Mitos da mulher no trabalho




Poucas devem ser as mulheres portuguesas que, tendo hoje mais de 50 anos, não ouviram: ‘o lugar das mulheres é em casa a cuidar do marido e dos filhos’. Actualmente, já ninguém estranha (nem desonra nenhuma família) a mulher ter um emprego, mas ainda há preconceitos que teimam em desaparecer da nossa sociedade. Os mais comuns são: não sabem trabalhar em equipa, não aguentam trabalhar sob pressão, são chefes despóticas ou que não sabem impor respeito. Será que têm algum fundamento?



Pedimos a uma consultora e um responsável de empresas de recrutamento, e a uma executiva que nos dessem a sua opinião sobre os preconceitos que ainda minam a vida laboral feminina.





Mito: Têm pouca autoconfiança

Falso



Segundo um estudo levado a cabo pela empresa americana ‘Washington Quality Group’ a imagem profissional que a mulher tem de si própria é inferior à realidade. Já com os homens passa-se precisamente o inverso, estes tendem a sobrevalorizar-se.



Outra opinião tem Margarida Morais, psicóloga, e coordenadora de Marketing de um laboratório farmacêutico internacional: "acho que as mulheres confiam bastante nas capacidades delas, cada vez mais lutam por cargos de chefia e mais responsabilidade. Até o facto de trabalharem fora de casa, terem filhos e a vida familiar em geral para gerir, faz com que acreditem que são capazes de gerir várias coisas simultaneamente".



Carla Lopes, consultora da empresa de recrutamento Galileu Recursos Humanos, tem a mesma convicção, "isso [falta de autoconfiança] é o que se diz, aliás, até convém. Mas no mundo laboral as mulheres são muito autoconfiantes nas tarefas que empreendem, tendo como objectivo primordial alcançar o sucesso num mundo de ‘machos’".





Mito: As mulheres são menos competentes que os homens

Falso



O facto de haver poucas mulheres em cargos de chefia é a desculpa mais utilizada para dar razão a este mito mas a verdade é que, como diz José Manuel Cardeira Seno, responsável nacional da empresa de recrutamento de quadros, Prime Search, tal como os homens, há mulheres competentes e incompetentes, não é uma especialidade feminina: "O facto de a sua entrada no mundo laboral ter sido mais recente leva a que as mulheres tenham de lutar mais para demonstrarem competência e conquistar lugares de chefia. Há alguns anos, o percurso feminino estava direccionado para apoio aos profissionais masculinos, como o secretariado, por exemplo. E era ouro sobre azul para os homens, já que as mulheres têm grandes competências de concentração, são melhores em línguas e informática, e ajudavam o homem, mantendo-se subalternas."



A consultora Carla Lopes afirma que "Há bom e mau em tudo. Regra geral, as mulheres são mais esforçadas e determinadas do que os homens".





Mito: Não conseguem trabalhar sob tensão

Falso



Há quem pense que as mulheres ficam à beira de um ataque de nervos, desatam num pranto perante um problema no trabalho, e soluções nem vê-las.



"As mulheres reagem de forma diferente perante a tensão", diz Margarida Morais, "se me perguntar se choram mais facilmente perante uma contrariedade ou perante a tensão, de terem de arranjar uma forma de desabafar ou expelir essa tensão, acho que sim. Mas acho que resistem muito bem à tensão".





Mito: Não querem de lugares com responsabilidade

Falso



Infelizmente, são ainda poucas as mulheres que ocupam cargos de chefia. E não é só no nosso País, verifica-se esta situação um pouco por todo o mundo. Será que as mulheres não querem cargos com responsabilidade?



"Querer, até querem", revela Carla Lopes, "o problema é encontrá-los. Onde estão esses lugares de responsabilidade? Muitas vezes o problema deve ser colocado na forma inversa: não nas competências das mulheres, mas nas incompetências de alguns homens".



"Acho que isso tem mais a ver com a personalidade da pessoa, que com o facto de ser homem ou mulher", afirma Margarida Morais, "conheço alguns exemplos de mulheres que ocupam cargos de muita responsabilidade e que gostariam até de ocupar outros com mais".





Mito: São inaptas a exercer autoridade

Falso



Mudam-se os tempos, mudam-se as mentalidades… mas aos poucos. Só há bem pouco tempo é que as mulheres deixaram de ter um papel secundário na sociedade por isso, é natural que estejam arreigadas algumas ideias que demorem a perder-se, como esta da pouca afinidade que as mulheres têm em exercer autoridade. Carla Lopes afirma convictamente que é "completamente falso: basta ver quem manda nos tachos e nas panelas, e quem manda comer a sopa lá em casa (risos). No fundo, a autoridade é encarada pelas mulheres como mais uma das suas ‘doces’ virtudes".



"Depende das mulheres…", diz por seu lado Margarida Morais, "o modo como se exerce autoridade é que é diferente de pessoa para pessoa. Posso exercê-la sem que com isso seja autoritária, ou demasiado rígida, e conseguir na mesma que me respeitem. Porque a autoridade também é respeito: se me respeitam, consigo ter autoridade".





Mito: São mais meticulosas

Quase sempre



Ora aqui está uma vantagem que nos trouxe os muitos séculos de ligação ao lar.



"Penso que a maioria é, sim", declara a coordenadora de marketing. "Acho que têm tendência para ser mais arrumadas e meticulosas do que os homens. Se calhar, na forma como estruturam o trabalho, os homens tendem a ser desarrumados e desorganizados… mas chegam, provavelmente, aos mesmos resultados".



"As mulheres são quase sempre mais meticulosas e ordenadas, dependendo, acima de tudo, se as tarefas vão de encontro, ou não, às suas realizações pessoais e profissionais", Carla Lopes.





Mito: Não gostam de trabalhar numa equipa masculina

Falso



Ambientes de trabalho estritamente femininos são os preferidos das mulheres? "Antes pelo contrário. A união faz a força, e esta união não é excepção", contraria Carla Lopes.



"Penso que é mais difícil várias mulheres coordenarem-se entre elas, a funcionar numa equipa só feminina, do que uma mulher numa equipa masculina. Nunca tive a experiência de trabalhar numa equipa meramente masculina, mas a ideia que tenho é a de que as mulheres se organizam muito bem a trabalhar com homens", afirma por seu lado a psicóloga e coordenadora de marketing Margarida Morais.





Mito: Para chegarem a cargos de topo têm de agir como os homens

Talvez



Lembra-se de Cybill Shepherd, a actriz que entrava na célebre série de TV dos anos 80 ‘Modelo e Detective’ ao lado de Bruce Willis? Pois é, de loura ela só tinha mesmo a cor de cabelo! Ex-modelo nos anos 70, Cybill ficou farta do machismo no mundo da moda e, como tal, nunca perde uma oportunidade para defender as mulheres: na porta da sua cozinha tem um cartaz com a frase: "A woman has to be twice as good as a man to go half as far" que quer dizer qualquer coisa como "Uma mulher tem de ser duas vezes melhor que um homem para obter metade do reconhecimento". Mas será que temos de nos masculinizar para atingir um cargo de topo?



José Manuel Cardeira Seno, responsável pela Prime Search, acha que "normalmente, por feitio, a mulher não é afirmativa, é feminina, é conciliadora. Os homens, pelo contrário, são descritos como tendo pulso, não se intimidam com situações desagradáveis. Por isso, é esperado que a mulher tenha essa capacidade de vestir a pele do homem, e é natural que a mulher tenha de alterar relativamente a sua atitude e capaz de dar ‘o murro na mesa’. Mas os conceitos sobre a liderança têm vindo a mudar, e já não é fundamental ser autocrático, mas sim ter a capacidade de influenciar e direccionar uma equipa em determinado sentido. São as capacidades próprias e inerentes à mulher, de orientar a família, que hoje fazem a ponte para a vida profissional, com a capacidade de influenciar, de persuadir, de envolver."



Já Margarida Morais tem uma opinião ligeiramente diferente: "Penso que é perfeitamente possível para as mulheres coordenarem a vida profissional sem ser preciso serem um ‘homem’, apenas competentes. É provável que, em alguns sítios, a mulher tenha de ser mais imperativa mas acredito que isso dependa da própria cultura da empresa em que se está inserida. É possível ser mulher, feminina e exercer a sua actividade profissional com determinadas características, sem que isso seja penalizante ou ponha a sua competência em causa".





Fontes:



Margarida Morais, Psicóloga, Coordenadora de Marketing em laboratório internacional da Indústria Farmacêutica



José Manuel Cardeira Seno, Partner da Prime Search (Senior Executive Positions), R. Rodrigues Sampaio, 21, 2.º A, Lisboa, tel. 213521005



Carla Lopes, Consultora da Galileu Recursos Humanos, R. do Salitre, 134, Lisboa, tel. 213878577













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