FOTOS: LUÍS COELHO; STYLING: PATRÍCIA PINTO

Encontramo-nos num café, em Belém. Estíbaliz Vicario, natural de Bilbao (mais precisamente Barakaldo), 44 anos, acaba de vir de uma consulta no Champalimaud. “Estava tudo bem”, diz, sorridente, e com um português perfeito. Aliás, torna-se evidente durante a nossa conversa, na forma como distribui diminutivos, que Estíbaliz já adotou pelo menos um regionalismo linguístico. Aterrou na Lousã por amor, em 1999, depois de ter conhecido Daniel em Groningen (Holanda) durante um ano de Erasmus. Ela estudava Gestão, ele Economia e não quiseram deixar contas em aberto. “Não sou de relações à distância. Era mais fácil eu vir para Portugal do que ele ir para Espanha, pelo feitio – eu sou mais aventureira – e havia muitas coisas que o amarravam cá.” Acabou o curso na Universidade de Coimbra, ainda geriu um centro de formação, mas durante a licença de maternidade da sua primeira filha (são duas, Victoria, 16, e Sofia, 14) foi desafiada para trabalhar na empresa de família, ainda a Licor Beirão era pequena: “Na altura, era eu, que fiquei com o Marketing, o meu marido, sogro e cunhado, uma administrativa e a linha de produção.”

A voz serena de Estíbaliz fica por duas vezes embargada durante a nossa conversa e nada tem a ver com a doença, a dela pelo menos, um cancro de mama diagnosticado em finais de 2020, do qual resultou uma nova (e melhor) vida – e uma empresa de cosmética natural, a LUR. A emoção surge sempre que falamos da sua mãe, que partiu o ano passado. Mas tampouco acredita ter sido a doença que a levou, um mieloma detetado pouco depois de Estíbaliz acabar os tratamentos, altura em que aproveitou ao máximo a sua companhia. “Ela tinha 87 anos e acho que ela estava velhinha e viu que nós, os três filhos, estávamos bem, eu estava saudável, os netos crescidos e saudáveis. Assinou um pacto com Deus, com o Diabo, não percebo muito bem com quem e disse ‘meus queridos, vou-me embora.’ Tenho a certeza de que não morreu do mieloma, morreu porque ela quis morrer. No dia em que a minha mãe morreu, um mês depois do diagnóstico, de manhã teve a revisão mensal, foi ao médico e fisicamente estava bem, os valores do mieloma tinham regredido bastante, as análises ao sangue estavam todas bem. E nessa mesma noite morre [em Bilbao] com o meu irmão ao pé dela, o único filho que ainda não tinha estado com ela neste curto período.”

Diz ser “ironia do destino” a mãe tê-la tido aos 43 anos, precisamente a idade em que Estíbaliz ficou doente… e renasceu. “Era uma mulher tão forte, tornou-me na mulher que eu sou agora.” Quem é e qual a sua história? Passamos-lhe a palavra.

A NOTÍCIA

“Soube durante um dia de trabalho, em finais de 2020. Estávamos numa reunião de equipa. O meu marido chamou-me lá fora e disse’temos de ir para casa’.

– Porquê, é positivo?, perguntei.

Ele disse que sim, já com umas lagrimitas nos olhos.

– Ok, Daniel, já vamos, deixa-me acabar a reunião.

Eu fazia exames com regularidade, mas com a pandemia estava tudo atrasado. Eu já tinha um nódulo mas era benigno e quando fui finalmente fazer a ecografia, a médica viu uma manchita na outra mama – não sentia rigorosamente nada. E decidiu fazer uma biópsia. O tumor era pequenino mas muito agressivo. Senti que no IPO de Coimbra não teria rapidez na resposta – era a Covid, a confusão de finais de 2020 –, e decidi ir para a Champalimaud, foi a melhor decisão que tomei, imediatamente comecei com a quimioterapia, na véspera de Ano Novo – 8 sessões de 15 em 15 dias. Às minhas filhas contei na véspera de aplicar o cateter para a químio. Ainda por cima, uns dias antes tínhamos visto um filme onde uma mãe morria com um cancro. Elas tinham o filme muito presente, eu disse ‘Isto não tem nada a ver com a ficção que vimos no outro dia, está tudo controlado, estou num dos melhores centros do mundo, estou supertranquila e vocês também vão estar’. E elas disseram ‘Ok, se tu estás bem, nós também’.

A seguir fiz uma cirurgia conservadora – conservo a minha mama, o tumor não era genético e tinha poucas probabilidades de reincidir. Reagi bem aos tratamentos, contudo, tive alguns efeitos secundários, como dores de cabeça e uma coisa horrível chamada ‘oncobrain’ ou ‘quimiobrain’: não era capaz de acompanhar uma conversa, de ter um raciocínio fluido, misturava todas as línguas numa só quando estava a falar, não podia ler… Ninguém me tinha falado nisto e fiquei muito chocada porque era como se as pessoas estivessem a falar polaco. Fiquei mais descansada quando soube que era reversível.”

O CABELO

“Disse ‘Daniel, está na altura’, e ele rapou-me o cabelo. Tinha o cabelo comprido, encaracolado…

Achei que não ia ser tão difícil como diziam, mas nesse dia, no chuveiro, chorei chorei chorei, estava triste. Já tinha ido à Mama Help cortar o cabelo curtinho e fazer uma peruca – que só usei dois dias –, mas passados dois ou três dias ele começou a cair e foi aí que rapei. Pensei ‘mas porque estás triste? É só cabelo, ele volta a crescer…’ A parte mental falava muito alto mas o meu coração estava a sentir-se doente… A perda de cabelo é a parte visível do cancro, em que dizemos ao mundo o que temos, mas felizmente coincidiu com o confinamento. Quando fui para a rua já tinha ganho alguma estrutura para poder enfrentar os olhares, as perguntas. Acabei os tratamentos em abril do ano passado e em junho o cabelo começou a despontar.”

PENSAMENTO POSITIVO

“Nunca tive dúvidas de ficar recuperada, nunca, nem por um segundo.

Fui operada pela médica Maria João Cardoso que é um ser humano incrível, e fundou a Mama Help no Porto. Eu confiava plenamente nela, na Helena Gouveia, a minha oncologista, e na Catarina Duarte, radiologista, tanto que lhes disse ‘sou toda vossa, façam o que tiverem de fazer’. Paralelamente procurei saber o que podia fazer por mim. Desporto, alimentação, meditação, respirar… já fazia, mas comecei a fazer tudo de uma maneira mais consciente, com o objetivo da cura.”

REVIRAVOLTA

“Os seis meses de tratamento obrigaram-me a parar, a repensar tudo… e não regressei à empresa.

Disse ‘Não sei o que é que vou fazer, mas quero experimentar algo novo, descobrir caminhos diferentes’. Os 15 anos que estive na Licor Beirão, fi-los com muito amor e aprendi tanto que não quero dar a entender que sou ingrata – falei com o meu sogro e a porta ficou aberta. Mas algo tinha mudado dentro de mim.

Já era consumidora de cosmética natural, mas comecei a olhar para ela de maneira mais consciente e mais focada. Depois dos tratamentos surge a possibilidade de fazer um curso inglês online para aprender a formular produtos. Durante seis meses dediquei-me de corpo e alma a este projeto e consegui o diploma de formuladora de cosmética natural. No trabalho de fim de curso, tínhamos de fazer um creme, a minha professora adorou e deu-me 198 pontos em 200. Era um creme antirrugas, agora melhorado e que faz parte do portefólio da LUR. Ela disse ‘Se quiseres, isto é vendável, podes fazer disto a tua nova paixão’. Desenvolvi outras três fórmulas: um óleo de limpeza, um tónico calmante e o sérum que complementa o creme. A parte de fazer o creme é fácil, é como cozinhar – e eu adoro cozinhar! Fazer um creme eficiente é que é o desafio. Falei com o laboratório que fez a produção em massa, porque não sou química nem farmacêutica e eles garantem a parte da estabilidade e segurança dos produtos, para poder submeter ao INFARMED e vender legalmente. Tenho os produtos em casa há mês e meio!”

VIDA NOVA

“No dia 29 de maio deste ano apresentei a LUR a todos, aos amigos, familiares, fiz uma pequena festa na Lousã e correu bem. Foi num dia de sol maravilhoso rodeada de quem me quer bem. Jamais pensei algum dia que teria uma empresa de cosmética natural. Quando ouvia podcasts com pessoas inspiradoras que falavam de experiências que tinham mudado as suas vidas, pensava ‘que sorte’ e em qual seria o meu propósito. E aconteceu. Se eu não tivesse ficado doente continuava na rodinha, naquela lufa lufa do dia a dia, no corre corre entre escola, compras e jantar, do ‘não tenho tempo, ah, ainda bem que é sexta-feira’.

O que me dizem é que me veem mais feliz, mais cheia de luz, mais cheia de energia e mais disponível. Não tenho mais tempo mas consigo geri-lo melhor, tenho mais liberdade. Agora não tenho uma equipa, a equipa sou eu e não tenho ninguém que dependa do meu trabalho para fazer o seu. Isso dá-me algum bem-estar mental que antes não tinha. Eu não vejo nada de mal nesta minha história. Evidentemente há coisas más, mas acho que consegui transformar uma erva daninha numa rosa.”

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