Catherine L'Ecuyer alerta: "Tratamos as crianças como uns pequenos executivos stressados"
Catherine L’Ecuyer alerta: “Tratamos as crianças como uns pequenos executivos stressados”

É um dos nomes incontornáveis da Educação e da Psicologia e acredita piamente que simplificarmos a vida das nossas crianças e, em consequência, a nossa, é algo fundamental para que cresçam adequadamente e alerta para o mundo e para aquilo que as rodeia. Do mais simples ao mais complexo. “Uma criança cujos sentidos estão saturados pelo consumismo e cujo coração não sente gratidão é uma criança que perdeu a curiosidade e a capacidade de superação e de esforço para chegar à excelência”, escreve Catherine L’Ecuyer num dos seus best-sellers. Na verdade, os títulos Educar na Curiosidade e Educar na Realidade, não sendo recentes, são completamente atuais e voltaram a estar nas livrarias por tudo aquilo que nos ensinam e demonstram. Destaca-se a necessidade de voltar ao básico, à essência, de deixar os ecrãs de lado e de conseguirmos proporcionar às nossas crianças uma infância que o seja mesmo, no seu ritmo próprio e sem saltar etapas que lhe são tão necessárias.

Foi precisamente sobre isto que a autora conversou com a ACTIVA online, numa entrevista que coloca a tónica nas crianças e que relembra o que podemos – e devemos – voltar a aprender com elas.

Catherine L'Ecuyer alerta: "Tratamos as crianças como uns pequenos executivos stressados"
“Hoje em dia nada cabe no horário das crianças”, diz Catherine
Foto: Pexels by PNW Production

De que forma a quantidade de estímulos a que as crianças estão expostas nos dias de hoje afeta a sua criatividade inata?

Não diria que as crianças têm uma criatividade inata, mas sim um desejo de conhecer que lhes é inato. Este desejo não é algo que adquirem, nasce com elas. Ninguém tem que motivar uma criança a descobrir, desde uma tenra idade que quer tocar em tudo. A criatividade surge quando a criança “relaciona” coisas distintas que conheceu ou descobriu. Mas antes de ligar ideias, a criança precisa ser capaz de perceber adequadamente a realidade e de ordenar as suas experiências sensoriais. E, para isso, precisa que os seus cuidadores principais saibam como desenhar um entorno favorável a essa descoberta.

E como se faz uma gestão mais simples dos estímulos num mundo que só nos pede pressa?

Prefiro falar de experiências do que falar de estímulos. Os estímulos vêm de fora e “condicionam” (abordagem comportamental). As experiências surgem de dentro da criança e a criança é agente. Os estímulos são rápidos, ruidosos. As experiências são lentas e silenciosas porque são interiores.

É verdade. Mas não sente que essa pressa de hoje em dia também é imposta às crianças desde muito cedo?

Sim, hoje em dia nada cabe no horário das crianças. Tratamo-las como uns pequenos executivos stressados. As crianças têm uma qualidade maravilhosa: vivem no momento presente. Nós costumamos viver no passado ou no futuro. Temos que aprender com eles e desacelerar. Só assim se pode saborear a vida e vivê-la na primeira pessoa, ou seja, ser protagonista dela.

O que acontece quando as crianças crescem num ambiente de stress e muito planificado, sem espaço para nada e onde a espontaneidade não é uma realidade?

Deixam de pensar por si. Estão continuamente a reboque do que o mundo virtual lhes oferece. Convertem-se em presas irreflexivas.

Quando é que deixámos de respeitar os ritmos naturais das crianças a favor das necessidades dos adultos, do trabalho, do capitalismo…?

A idade da infância é a idade da brincadeira, da descoberta, da imaginação. Temos que olhar para as crianças e pensar no que elas precisam, deixando os nossos esquemas adultocentristas de lado. No meu livro Educar na Curiosidade explico o que temos que fazer para respeitar as necessidades reais dos miúdos: respeitar a sua inocência, os seus ritmos, a sua sede de mistério, de natureza, de beleza.

“A idade da infância é a idade da brincadeira, da descoberta, da imaginação. Temos que olhar para as crianças e pensar no que elas precisam, deixando os nossos esquemas adultocentristas de lado”, sublinha a autora.
Foto: Pexels by Ron Lach

Ser criança no nosso tempo é mais difícil? Porquê?

Sim, porque é uma etapa que tendemos a acelerar. Fala-se agora da redução da infância. O que ganhámos com isso? A adolescência começa antes e acontece durante mais tempo. Não acredito que seja uma boa notícia. Por isso é que vemos comportamentos infantis em muitos adultos. Cada etapa da vida é maravilhosa quando é bem vivida e no momento correto.

É importante deixarmos que as crianças tenham tempo não programado, sem nada para fazerem e que apenas desfrutem desse tempo?

Sim. A brincadeira semi-estruturada é a chave. Nessa brincadeira, a criança encontra desafios que se ajustam às suas necessidades. Quando o desafio é demasiado complicado, a criança sente ansiedade. Quando é demasiado fácil (como é o caso dos ecrãs, por exemplo), a criança sente-se aborrecida. Em contrapartida, na brincadeira semi-estruturada, a criança escolhe um desafio que se ajusta às suas capacidades e disfruta dele. Entra num estado de “flow” que lhe dá prazer. E pode manter-se concentrada várias horas nessa brincadeira.

Como mãe de quatro, imagino que descomplicar seja a palavra de ordem. Quais são as máximas que segue em sua casa?

Sim, nem mais, temos que “podar” a nossa vida para o essencial. Não é necessário fazer planos ou atividades caras e complicadas. Porque passamos a vida a comprar e a consumir coisas? Há pequenos prazeres da vida que são gratuitos ou bastantes acessíveis e temos que aprender a desfrutar deles em família com os mais pequenos. Pescar, cozinhar, fazer bricolage, passear, ver as estrelas, observar uma fila de formigas, ir ao bosque com uma lupa depois de um dia chuva…

Os adultos podem, de facto, aprender muito com as crianças sobre o poder do espanto e da simplicidade? Da beleza das pequenas coisas?

Rachel Carson dizia que as crianças só podem espantar-se na companhia de um adulto capaz de se espantar. Mas é um ciclo virtuoso. Quando os nossos filhos nascem, a vida oferece-nos uma oportunidade maravilhosa para voltarmos a encontrar-nos com esse espanto, esse “uau”. É impossível não nos emocionarmos perante o olhar espantado de um bebé ou de uma criança de dois anos que descobre pela primeira vez o mundo. Como dizia Chesterton, “em cada uma dessas pequenas cabeças, há um mundo que se estreia pela primeira vez, como no sétimo dia da criação”.

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