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John Sommer

No mês dedicado ao combate ao cancro da mama, a ACTIVA entrevistou João Bastos Martins, especialista em cirurgia plástica, estética e reconstrutiva, sobre a importância desta componente no processo psicológico das mulheres que lutam contra o cancro mamário, mas também sobre a importância de alertar, mais uma vez, para a importância do rastreio e de acompanhamento médico.

1.A par do processo doloroso do cancro da mama, há o lado das sequelas estéticas inerentes a uma cirurgia desta natureza. Considera que estas são muitas vezes menorizadas relativamente ao quadro geral da doença?

É verdade que, frequentemente, o lado estético ainda é desvalorizado. Mas mal, a meu ver. Claro que a prioridade é sempre tratar a doença – é e deve sempre ser a preocupação número um -, mas não podemos nunca ignorar o lado estético, pois é com a sua imagem que a mulher vai viver o resto da sua vida e, queiramos ou não, nós, seres humanos, valorizamos muito a imagem, queremos sempre estar no nosso melhor, o mais bonitos possível. É inerente a nós, não há como evitar. E quando não nos sentimos bonitos e bem com o nosso corpo, rapidamente desenvolvemos cenários de depressão e isolamento, que podem ter graves repercussões na vida a médio/longo prazo. Além disso, uma reconstrução com um bom resultado estético vai ajudar a eliminar o estigma e as marcas da doença. Ajuda a quase esquecer essa fase da vida.

É habitual ouvir no meu consultório frases como “sinto-me incompleta”, “não sou a mesma”, “toda a gente olha”, “não consigo ter uma relação sexual”, “tenho vergonha de me despir em frente ao meu marido”. Isto expressa bem o peso que a estética tem na vida destas mulheres depois de serem mastectomizadas (em que a mama é retirada).

Mas, apesar de sentir que ainda se pode desvalorizar a imagem, acho que isso tenderá a mudar. Por um lado, porque as pessoas estão cada vez mais informadas e o culto do bem-estar pessoal continua a crescer, pelo que – acredito eu – vão procurar cada vez mais cuidar também do lado estético. Por outro lado, a própria medicina tem evoluído nesse sentido e, hoje, os médicos não procuram apenas tratar a doença, procuram tratar com o mínimo impacto físico, para que as sequelas sejam minimizadas.

2. Qual o principal impacto que as sequelas estéticas de uma cirurgia mamária têm na doente com cancro?

A mulher pode sentir-se desfigurada, incompleta, sexualmente incompleta porque sobrevaloriza a situação. E é normal que assim seja, já que está emocionalmente fragilizada. Daqui parte para uma espiral de negatividade imensa, que culmina, muitas vezes, em desmotivação, com impacto na vida familiar, social e profissional.

3. Em que situações é possível realizar na mesma altura a cirurgia de reconstituição plástica?

Idealmente, a reconstrução é sempre realizada de imediato, na altura da mastectomia, para que a mulher não tenha de enfrentar a imagem do seu corpo mutilado (aos seus olhos) e evitar o estigma da amputação. Mas nem sempre é possível, depende do caso clínico, das características do tumor e da necessidade de tratamento complementar (como radioterapia). Vai ser sempre uma decisão tomada em conjunto pelo oncologista, pelo cirurgião e pela doente – tal como o tipo de reconstrução a realizar. Nos casos de mastectomias profiláticas (realizadas pelo elevado risco de vir a desenvolver neoplasia mamária) a reconstrução imediata será sempre possível, exceto se houver qualquer complicação durante a mastectomia que a impeça.

4. Nas situações em que isso não é possível, qual o período de tempo médio que é necessário esperar e como é que isso se relaciona com os restantes tratamentos para o cancro da mama?

A reconstrução mamária é sempre um processo que demora algum tempo, podendo demorar até cerca de um ano ou ano e meio a ficar completamente concluído, mesmo quando o primeiro passo é dado aquando da mastectomia. Habitualmente, a reconstrução é feita em três tempos operatórios: o processo arranca com a reconstrução da mama, que poderá ser feita em um ou dois momentos (um deles podendo ser feito durante a mastectomia); depois, segue-se a reconstrução do complexo areolo-mamilar e a simetrização da mama contralateral ao mesmo tempo que pode ser realizado algum refinamento estético na mama reconstruída, para conseguir uma maior simetria e equilíbrio entre ambas as mamas. É um esforço extra, mas com benesses muito grandes para a autoestima da mulher e que, na maior parte dos casos, decorrem sem grandes complicações. Os resultados tendem a ser muito satisfatórios. Note-se que os diferentes passos cirúrgicos têm que ser enquadrados e planeados de acordo com o tratamento médico da doença, como radioterapia e quimioterapia ou hormonoterapia.

5. Em que situações não é possível de todo proceder à reconstituição? E quais as alternativas ao dispor da mulher para ‘minorar’ o impacto desta situação?

O não ser possível proceder a qualquer tipo de reconstrução prende-se essencialmente com o estado de saúde da mulher e com a sua vontade. Em casos de múltiplas comorbilidades, em que a vida da doente ou o sucesso da cirurgia possam estar comprometidos, não se avançará com a reconstrução. Poderá também haver mulheres que, ou por razões monetárias ou de disponibilidade mental, profissional ou familiar, não desejam avançar com a reconstrução. Nesse caso, a alternativa passa por utilizar próteses externas que conseguem minimizar a ausência de mama, quando a mulher está vestida.

6.A que sinais devem as mulheres estar atentas, nomeadamente no que diz respeito ao autoexame da mama, que podem ser indícios de cancro?

O autoexame é um passo essencial para a saúde da mulher. Não tem como objetivo diagnosticar doenças – claro –, mas é uma forma das mulheres estarem alerta a mudanças que possam surgir na mama, seja em cor, irritação ou no surgimento de um nódulo. São sobretudo estes os indícios a que devem estar alerta. É recomendável que todas façam este autoexame uma vez por mês, todos os meses, após o período menstrual.

7.Com que regularidade devem realizar o rastreio, tendo em conta os antecedentes familiares e a idade?

A visita a um ginecologista ou senologista não deve, nunca, ser esquecida. É recomendável que as mulheres o façam uma a duas vezes por ano e que, no caso de mulheres sem risco aumentado de cancro da mama, a partir dos 50 anos (ou de acordo com as indicações do seu médico), façam rastreio através de ecografia e mamografia. Em casos com antecedentes familiares de casos de cancro, o ideal será começar antes e com maior frequência.

8. A ideia de que mulheres com filhos ou que amamentaram têm menor probabilidade do que aquelas não tiveram filhos de desenvolver cancro de mama é um mito ou tem bases científicas?

Tem as suas bases. A maioria das mulheres que amamenta estão sujeitas a alterações hormonais durante a lactação que alteram os períodos menstruais normais. Isto reduz o tempo de exposição da mulher a hormonas, como o estrogénio, que poderão promover o crescimento de células cancerígenas. Alguns estudos referem que este efeito é mais evidente se a amamentação durar mais de 12 meses. A mesma evidência está demonstrada no que diz respeito a tumores do ovário.

9.E no caso dos tratamentos hormonais ou da pílula? Aumentam a probabilidade de desenvolver cancro da mama?

Há estudos que referem uma ligação de algumas pílulas ou tratamentos hormonais ao aumento do risco de cancro da mama, no entanto também há estudo que o contradizem, demonstrando que não há associação da contraceção hormonal com um aumento total do risco de vir a desenvolver cancro da mama. Ou seja, é algo que ainda é discutido. Na minha opinião, são terapias que matematicamente poderão ter influência nesses números, mas não quando consideramos o risco global de uma mulher vir a desenvolver cancro da mama, ou seja, juntando todos os fatores de risco.

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