Foto Pexels/Vaibhar Kashyap

1. Ver o chefe… de calções


Ou pior: encontrar o chefe sem calções. A pessoa vai sossegadamente passeando pela praia a pensar ‘ah que felicidade estar uns dias sem o chefe Sousa, não ouvir a voz do chefe Sousa, não ver o nariz do chefe Sousa, não ouvir o chefe Sousa espirrar, olha que engraçado, aquele tipo a caminhar na minha direção parece mesmo o chefe, diria que é o chefe se não fosse impossível ser o chefe porque o chefe foi para o Ancão’, e de repente olhamos melhor e, sim, ó céus, é o chefe, o chefe com uma loira pelo braço que não é a Mrs. Sousa, o chefe com uns calções às flores e a barriga por cima dos calções, ou pior, o chefe sem calções, e a barriga por cima de…, por cima de…, e a gente sem saber o que há de fazer, se dizer ‘Olá chefe’, se fingir que não vê o chefe e continuar a andar a olhar fixamente para o horizonte, se dar meia volta e sprintar para a toalha a tempo de se enfiar nela, se ligar à genuína Mrs. Sousa e dizer que ele está de braço dado com uma loira que não é ela, mas é demasiado tarde, o chefe já nos viu, o que é estranho porque o chefe nunca nos vê, nem em férias nem fora delas. O chefe acaba por passar com a loira que não é a Mrs. Sousa, e nenhum cataclismo aconteceu mas já ficaram as férias arruinadas e a partir de agora achamos sempre que ele pode voltar, como o inverno.

2. Chorar a celulite


Olhamos sempre em boomerangue: olhamos para a celulite alheia que nos reenvia imediatamente de volta para a nossa. Ir ao mar é um portento de paranoia e organização feminina: a pessoa levanta-se carregando consigo os fantasmas de toda uma vida. ‘Ai que está toda a gente a olhar para mim, todas estas (quantas?) sei lá, mil milhões? Pessoas desta praia, tudo a olhar para mim’, que corresponde ao síndroma da adolescência, quando achamos que somos a entidade mais importante à face da terra. Desenvolvemos uma forma engenhosa de caminhar às arrecuas na direção do mar a dizer adeus, ou embrulhamo-nos no páreo até onde podemos, mas há sempre uma altura em que não podemos mais, a não ser que se vá ao banho de sobretudo.

3. Dançar em linha


Sempre soubemos que nunca seríamos uma estrela rock que cante e dance, mas, não se sabe porquê, o mundo insiste em fazer sair do armário a Rihanna que há em nós. Problema: a Rihanna que há em nós parece-se admiravelmente pouco com a Rihanna que há na Rihanna. Não somos do estilo de abanar a anca, temos outros encantos, mas há sempre alguém que nos enfia numa discoteca manhosa, ou arrasta-nos para a ‘animação’ de hotel que inclui sempre uma data de hóspedes a fingir que são o Ricky Martin.
Quando damos por nós, estamos no palco a abanar-nos ao som da Macarena, sim a macarena, elle-même, the one nd only, a saudosa, como se nada se tivesse passado desde o verão quente de 92. Vamos para a esquerda quando toda a gente vai para a direita, aquela gente não deve fazer outra coisa na vida senão treinar aquilo mas nós passámos o inverno a trabalhar, ou então estamos a tentar ao mesmo tempo abanar a anca e segurar a mala ao ombro (nunca conseguimos sair de casa só com cartão de crédito e telemóvel) e a tentar fazer um ar blasé, e até conseguiríamos fazer uma boa imitação de nós próprias em versão blasé se outra pessoa não estivesse apostada em nos fazer sentir mal: “Ai descontrai-te! Solta a fera que há em ti!” Hmmm. É melhor não. Sinceramente, é melhor não.

4. Ter uma intoxicação alimentar no estrangeiro


A menina da agência preparou-nos prestimosamente um roteiro que incluía nadar com os golfinhos e ver um mercado tradicional, mas o nosso estômago assim que foi apresentado aos tacos e às enchiladas decidiu desenvolver personalidade jurídica.
Quando damos por nós estamos numa cama de hotel, mais verdes que o molho das enchiladas, e há sempre alguém que diz ‘Ai não sei se neste país já erradicaram a malária!’, e o pior é que não se pode ir ao Google ver os sintomas da malária porque o smartphone não apanha rede. Não poder ir ao Google é ainda pior que ter malária. Acabamos por decidir que nem a malária é mais forte que nós e somos arrastadas em braços através de todo o roteiro previsto como um soldado de Napoleão. Largamos um rasto de vomitado heroico pelo país afora, vomitamos na piscina, nas ruínas, no altar dos sacrifícios, pelos degraus das pirâmides (ai espera, agora já não se pode, bem, sempre é um local de humilhação a menos), no nariz dos desgraçados dos golfinhos, em cima das malaguetas do mercado, do alto da montanha russa em forma de crocodilo no parque de diversões e na cara do caramelo que diz ‘não faças drama que não estás assim tão mal’, que é para ele aprender que nunca se troça de um intoxicado.

5. Ficar sozinha na cidade


Afinal, tanta crise, tanta crise, e foram todos a banhos para longe. Só nós continuamos no mesmo sítio. O Facebook e o Instagram estão desertos como o pátio da escola em agosto, ou então pior, cheios de fotos de tipos com daiquiris na mão e sorriso parvo na cara. Ou fotos só do copo, com o pôr do sol ao fundo. Ou dos joelhos. Ou do mar transparente. Toda a gente diz que é fantástico ficar na cidade em Agosto, mas depois ninguém fica. Podia ser um tempo passado a descobrir os jardins desconhecidos ou em comunhão com a família, mas a família prefere ir comungar para outro lado e descobrir jardins sozinha, é um desconsolo… O filho arranjou um biscate a vender iogurtes vestido de deus grego em Armação de Pera e nunca mais ninguém o viu deste lado do Olimpo, a filha fecha-se no quarto a pensar no Bernardo, que nem sequer sabe que ela existe e anda de caso com uma prima loira e beta chamada Benedita, com quem há de casar depois de um ano de voluntariado em Cabo Verde. Quando todos voltam de férias, parece terminado o pesadelo, até que alguém se lembra de perguntar: ‘Então e tu, foste para onde?’ e a pessoa tenta não desatar a chorar.

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