Luísa Lopes, neurocientista no Instituto de Medicina Molecular João Lobo Antunes (IMM)

Antes de mais, importa reter um facto: por muito que sonhemos com elixires da juventude, o envelhecimento é incontornável. Podemos dar uns retoques amigos da cirurgia plástica ao corpo, mas no que diz respeito ao cérebro, a poção ‘mágica’ para manter as funções cognitivas está nas nossas mãos. Embora o superacelerado ritmo da vida moderna nos empurre no sentido da doença – sedentarismo, obesidade, vigília constante – a Ciência têm-nos mostrado o caminho certo para uma vida mais longa e saudável.

A neurocientista Luísa Lopes – do Instituto de Medicina Molecular (IMM), especialista em neurofisiologia do envelhecimento, cognição e memória, coordenadora do programa de investigação que pretende compreender os mecanismos que induzem o envelhecimentoprecoce da função cognitiva – conta-nos alguns factos sobre o fascinante cérebro, o que devemos fazer para termos um envelhecimento cerebral saudável e como manter as doenças neurodegenerativas ao largo. Spoiler alert: temos de olhar mais para o que andam a fazer nas zonas azuis (localidades em vários pontos no mundo onde existe um elevado número de centenários com baixa incidência de doenças crónicas).

O que é isso do ‘envelhecimento do cérebro’?
Normalmente, as pessoas associam-no às doenças neurodegenerativas, mas devemos estar mais focados no envelhecimento saudável, que é um processo normal. O cérebro vai mudando à medida que crescemos e passa por várias fases. Em termos muito genéricos, a mudança começa logo quando somos muito pequeninos, é uma fase em que há imensas ligações sinápticas que se vão especializar. Podemos ver isso na coordenação motora, quando as crianças começam a usar o lápis, por exemplo, em que vão ficando com uma destreza cada vez maior. Isso é sinal de que as nossas ligações sinápticas estão a especializar-se, o mesmo acontece na linguagem, na visão e por aí fora. Outra fase de desenvolvimento do cérebro, que acontece depois da adolescência até aos 21 anos, diz respeito ao córtex frontal e está relacionada com a parte racional, da tomada de decisões, daí os adolescentes serem normalmente mais impulsivos. Depois dessa idade temos um período mais ou menos estável e, após os 40 anos, começa a haver uma diminuição do volume cerebral, muito subtil, sem grandes consequências.

Nessa diminuição de volume cerebral há morte de neurónios?
Isso acontece de facto em neurodegeneração, por exemplo, se há uma doença de Alzheimer, aí há uma perda muito drástica do número de células nervosas. No envelhecimento saudável, não. O que acontece é que há alguma diminuição da velocidade de processamento, da velocidade de cálculo, há alguma diminuição da memória de factos ou eventos, mas gradual. Imagine as ligações sinápticas do nosso cérebro como se fossem uma árvore, o que acontece à medida que envelhecemos é a diminuição dos ramos, como se fossem desbastados. Isso é um processo muito gradual e normalmente não tem influências cognitivas extremas. No envelhecimento saudável temos pessoas com 90 anos com um desempenho cognitivo fantástico, que fazem raízes quadradas, por exemplo. E normalmente não se vê uma perda daquilo que chamamos de ‘memória de procedimentos’, por exemplo, quem toca um instrumento, pinta, canta, esse tipo de memória não se perde.

“A nossa capacidade de atenção tem diminuído ao longo dos anos. Há vários estudos em crianças a mostrar a importância dos momentos do aborrecimento e da não superestimulação.”

Ainda se olha para o processo de envelhecimento como uma maldição…
Mas não é verdade, nós temos muitas formas de alcançar aquilo a que chamamos de envelhecimento saudável. Neste momento, distinguimos duas coisas: o envelhecimento que conduz à doença neurodegenerativa (que algumas pessoas vão ter) e o envelhecimento saudável. Há alterações de memória que são normais e alterações de memória que são claras de doenças neurodegenerativas. Há muita coisa que altera a memória e que faz com que as pessoas pensem que estão com problemas neurodegenerativos e não estão.

O quê, por exemplo?
O stresse altera a memória, um trauma, uma higiene do sono pobre (apneia, insónias…), depressão, todos afetam grandemente a memória, e por isso é muito importante tratar estes problemas de saúde logo de início. Se as pessoas acham que estão a ter alterações de memória e cognitivas têm de se queixar ao médico, para se perceber se é um problema mais grave, neurodegenerativo, ou tem a ver com uma situação mais circunstancial. Não recorram ao dr. Google.

Com que idade é possível perceber se essas alterações de memória são normais ou têm a ver com doenças neurodegenerativas?
É possível saber em todas as idades, porque os clínicos fazem testes muito concretos que têm em conta a idade da pessoa. Por isso, quer tenha 30 ou 60-70 anos, há testes que são validados para várias idades e, também muito importante, de acordo com o grau de escolaridade. Há testes de imagem que dão para perceber se há ou não redução de volume de áreas, como o hipocampo, que estão mais ligadas à doença de Alzheimer. Também há biomarcadores de depósitos de agregados de proteína, análises ao sangue, ao líquido cefalorraquidiano… Portanto, normalmente, não há grande confusão entre o que é envelhecimento saudável e uma neurodegeneração. Há uns anos, as pessoas diziam muito “isso é da idade”. Não, há coisas que são da idade e há coisas que não são da idade.

As mulheres têm maior risco de doença de Alzheimer. Será por terem tido menos acesso à escolaridade e mercado de trabalho?
Provavelmente tem a ver com questões hormonais ou biológicas, não tanto com o fator de menor escolaridade ou de ter menos desafios intelectuais no dia a dia, até porque há estudos que comparam graus de formação semelhantes, e noutros países. Um dos fatores de risco para a demência é o sono – em Portugal, às vezes negligenciamos o sono –, outro é o isolamento social, e aqui as mulheres foram mais afetadas, ficaram mais tempo sem a interação social do trabalho, e sim, também não podemos descurar a falta de atividade intelectual.

“A neuroplasticidade é um dos conceitos mais fascinantes do cérebro, essa capacidade de, em adulto, aprender coisas novas…”

Então e o que promove um envelhecimento saudável do cérebro?
Para além de uma boa higiene do sono, o convívio social, o exercício físico e a alimentação saudável. Se promovermos a saúde do corpo, promovemos a saúde do cérebro e, portanto, conseguimos ter um cérebro mais saudável até mais tarde. Atualmente, há uma consciencialização maior e as pessoas fazem mais exercício físico e têm mais cuidado com a alimentação. Olhe, um dos fatores protetores do cérebro reconhecido e que nós estudámos é a cafeína.

Boas notícias para quem bebe café!
Há pessoas que não bebem café, mas se beberem chá ou cafeína noutras substâncias também têm esse efeito protetor. Ao longo da vida, vai havendo uma ligeira inflamação do cérebro e a cafeína parece ter dois efeitos: protege desta inflamação e diminui o risco da doença de Alzheimer, sobretudo nas mulheres.


Finalmente uma boa notícia para as mulheres! (risos)
E outra coisa interessante é que 2-3 cafés por dia são o suficiente para ter este efeito protetor.

Então e não temos de aumentar o número de cafés ao longo
do tempo para obter o mesmo efeito?
Não, curiosamente, em termos académicos de farmacologia, a cafeína tem esse efeito raro, não precisam de aumentar a dose. Continua-se a ter sempre o mesmo efeito 30 minutos depois da toma, conseguindo-se assim ter um aumento da concentração, de atenção, de foco.

E qual é o efeito da menopausa
 no cérebro?
É significativo, há vários estudos a mostrar isso. Mas podem ser muito atenuados com uma alimentação adequada, com exercício físico, que ajuda imenso na função cognitiva, na memória e na concentração. Temos de lembrar que há o efeito agudo da baixa de estrogénios, mas que pode ser atenuado com terapêuticas hormonais de substituição, caso seja indicado. Não esqueça que há situações em que pode haver depressão associada, devido às muitas alterações na líbido, na pele, no aspeto físico, na perda de massa muscular, o que pode influenciar o estado psicológico.

Nascemos com um número predeterminado de neurónios?
Nascemos com o número de neurónios que vamos ter ao longo da vida, embora haja umas zonas em que há neurogénese no adulto, mas são muito marginais. Por isso é tão importante cuidar destes neurónios porque quando se perdem é irreversível, e há perda de neurónios nas doenças da patologia neurodegenerativa, não no envelhecimento saudável.

O que acontece quando se tem um AVC?
Numa situação como a de um acidente vascular cerebral, em que há corte de oxigénio, de glucose, a zonas do cérebro, pode haver morte dessa zona. No entanto, há uma coisa fantástica que se chama neuroplasticidade, que faz com que haja outras zonas do cérebro que, se forem treinadas, conseguem fazer a função daquela que deixou de estar ativa. E por isso é tão importante a fisioterapia, da fala, motora…

Então e o ‘burro velho não aprende línguas’?
É mito. A neuroplasticidade é um dos conceitos mais fascinantes do cérebro, essa capacidade de, em adulto, aprender coisas novas…

“O cérebro precisa de momentos de ócio. Não vale a pena dizer que é falta de desempenho ou de organização, é sobre-humano. Temos de nos desligar, de deixar de estar sempre contactáveis.”


Funciona com repetição?
Exatamente. A memória funciona com repetição, treino, como o exercício físico. Se estivermos sempre a ativar os mesmos circuitos, de uma forma repetida e consistente, melhoramos essa capacidade. Daí a importância de uma boa vascularização, da vida saudável, do sono, da alimentação, do exercício físico, da atividade intelectual…

Que tipo de atividades intelectuais 
são boas para o cérebro?
Tudo o que nos desafie é bom. Não tem a ver com a complexidade da tarefa. Pode ser ler livros diferentes, aprender uma língua, usar o metro, planear uma viagem… Estamos a viver mais anos, temos de manter a nossa saúde por mais tempo e deixar que as pessoas aprendam coisas novas ao seu ritmo. Só assim nos sentimos confiantes para experimentar coisas novas, que são boas para o cérebro. Em Portugal, não respeitamos as pessoas de mais idade, a condescendência é muito irritante e perniciosa.

Fala-se muito de produtividade, mas a ideia de que podemos estar constantemente a produzir conteúdo não é uma falácia?
Sim, o cérebro precisa de momentos de ócio. Por um lado temos o sono, por exemplo, que é muito negligenciado em Portugal, nas crianças e nos adultos. Ao não dormirmos o suficiente, a acumulação de agregados tóxicos no cérebro pode dar origem a doenças neurodegenerativas, porque é durante o sono que há ‘limpeza’. Por outro, não se consegue ter um desempenho do cérebro sempre no seu máximo. Não vale a pena dizer que é falta de desempenho ou de organização, é sobre-humano. Temos de nos desligar, de deixar de estar sempre contactáveis, de responder a mensagens, emails e a telefonemas mesmo no período de descanso. A nossa capacidade de atenção tem diminuído ao longo dos anos. Há vários estudos em crianças a mostrar a importância dos momentos do aborrecimento e da não superestimulação.

É mito dizer que só aproveitamos 10% da capacidade do cérebro?
Sim, na ciência há mitos que já se provaram estar errados mas que ainda vigoram e perduram no tempo. Há um livro muito interessante da investigadora Joana Rato, que se chama ‘Neuromitos’, que fala desse e de outros mitos, que as pessoas deviam ler.

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