
O que colocamos na mesa pode ser o segredo para uma vida longa e saudável. E não apenas o que comemos, mas também o tempo que dedicamos ao exercício físico, as horas que dormimos, o cuidado ao gerir o nosso stress… Tudo é fundamental para prevenir doenças crónicas e até cancro. Falámos com a nutricionista e professora de Nutrição da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, Catarina Sousa Guerreiro, co-autora do livro ‘Comer para Prevenir e Enfrentar o Cancro’, que nos esclarece, de forma bastante clara, a importância da ‘farmácia’ na nossa despensa.
Fala-se muito em alimentação saudável como um elemento de prevenção de cancro, até que ponto isso é verdade?
A resposta é simples: 1/3 dos casos de cancro poderiam ser evitados se as pessoas adotassem um estilo de vida mais saudável. E isso significa alimentarem-se de forma mais saudável, praticar mais exercício físico, e não fumar. A alimentação como prevenção é mesmo uma realidade.
Pode dizer-nos quais são os alimentos que têm mais provas dadas na prevenção do cancro?
É difícil e pouco lógico eleger um alimento em detrimento de outro. Ninguém se alimenta de um só alimento, e a monotonia nutricional é tudo o que não devemos preconizar. Dito isto, será no grupo de alimentos de origem vegetal, como os das frutas, dos hortícolas, das leguminosas que vamos encontrar os alimentos ricos em muitos fitoquímicos, com propriedades antioxidantes, antiflamatorias (como o tomate, o alho, a cebola, as couves e os brócolos, os frutos vermelhos… ) que por um motivo ou outro (que é como quem diz, por terem um composto ou outro) tornam benéfico o seu consumo.
Por que faz sentido ter um nutricionista numa equipa médica de um doente oncológico?
Por várias razões, mas destaco duas. A primeira porque o estado nutricional do doente vai influenciar o resultado dos tratamentos: doentes desnutridos, por ex., vão tolerar pior os tratamentos (há maior toxicidade dos mesmos) e por isso a eficácia desse tratamento fica condicionada. Segundo, porque os próprios tratamentos condicionam a ingestão de alimentos e a absorção dos nutrientes. Adaptar a dieta às condições que aquele individuo está a viver é fundamental.
Quais são as principais necessidades nutricionais dos pacientes com cancro, comparativamente a uma pessoa sem a doença?
A presença do cancro pode traduzir por si só um aumento das necessidades energéticas e proteicas. Isto significa que aquele doente só por ter um cancro deveria ingerir ligeiramente mais energia e proteína do que alguém da mesma idade e género sem doença. Se por um lado, por causa do próprio tumor, há necessidades aumentadas, a verdade é que também derivado ao próprio tumor e tratamentos os doentes acabam por ter menos apetite e consumir menos energia e menos proteína. Nestes casos o balanço entre o que é necessário e o que é consumido fica muito desequilibrado e verificamos o agravar do estado nutricional.
Os tratamentos de cancro afetam as necessidades nutricionais, o metabolismo dos pacientes?
Dependendo da localização do tumor e do tipo de tratamento (quimio ou radioterapia ou cirurgia) diferentes podem ser as necessidades de adaptação da alimentação. Existirão casos em que será necessário alterar consistência dos alimentos, noutros retirar ou aumentar a fibra, noutros promover o consumo proteico, ou reduzir a gordura… mais uma vez é altamente personalizável, face ao quadro clínico do doente.

Quais são os desafios alimentares mais comuns que os doentes oncológicos enfrentam?
São variados. Provavelmente as náuseas e enjoos que levam à falta de apetite com consequente perda de peso sejam os mais frequentes. Esta situação angustia muito o doente, mas também a sua família/cuidadores. O doente sente como contra natura ter de se alimentar quando não tem apetite nenhum, quando o cheiro da comida o enjoam, e isso por vezes é de difícil compreensão para a família. Assistem ao enfraquecer do doente, e a tendência é forçar que o doente coma mais . É muito frequente que a alimentação cause algum atrito entre doente/família.
Como podem ser superados?
Com ensino. Estarem preparados para o cenário que pode vir a ocorrer. Daí a importância do apoio precoce em consulta de nutrição. Tentar mudar o rumo do cenário quando o doente já perdeu muito peso, quando já está muito fraco e com pouca energia é quase utópico.
Existem alimentos ou suplementos específicos que devem ser evitados durante o tratamento?
No que respeita a alimentos per si são poucos aqueles em que há necessidade de restrição. São situações muito pontuais em que se verifica interação de determinados alimentos com fármacos. Essas interações por norma são abordadas numa primeira consulta clínica onde é explicado o tratamento e potenciais reações (ex. da toranja, ginseng, açafrão das índias com fármacos da quimioterapia…). Para além disto será importante que exista uma maior certeza e controle da qualidade higieno-sanitária dos alimentos a serem consumidos, e como tal a segurança no consumo de alimentos como ovos não confecionados, queijos não pasteurizados, legumes crus… tudo isso acresce um risco num organismo cujas defesas imunológicas estão em baixa. Por fim, a toma de suplementos ou extratos de substâncias devem ser evitadas, mas se por algum motivo o doente pretende tomá-las, a comunicação com a equipa clínica é muito importante.
De que forma é que uma nutrição adequada pode melhorar os resultados do tratamento de cancro?
Em cada 10 mortes por cancro, 1 a 2 deve-se ao mau estado nutricional. Um pior estado nutricional está associado a maior toxicidade dos tratamentos, e por isso mais efeitos secundários, diminuição da massa muscular, diminuição da competência do sistema imunológico, maior número de infeções e pior qualidade de vida (por perda de capacidade física, dor, fadiga…). Por isto o papel da nutrição como veículo de entrada de nutrientes e outras substâncias úteis numa boa composição corporal bem como reserva de compostos benéficos é fundamental.
A alimentação difere conforme o tipo de cancro, ou seja, pode personalizar-se os planos nutricionais para pacientes com diferentes tipos de cancro?
Sim, por ex. a localização do cancro influencia o impacto que este poderá ter no estado nutricional e consequente plano alimentar a adotar. Por ex., um cancro que afete um ou mais órgãos do sistema digestivo (oral/esófago/gástrico/intestinal) terá implicações diferentes do que um, por ex., no pulmão.
Tem vindo a público que o jejum intermitente, muito na moda, é eficaz durante os tratamentos, é verdade ou não é assim tão linear?
Não é de todo linear. Há alguns dados de estudos pré clínicos (em células e animais) a revelar algum potencial interesse, mas depois há estudos em mulheres com cancro da mama/ovário/ginecológico (com bom estado nutricional) em fase de tratamentos a revelar resultados contraditórios pelo que o seu beneficio não está comprovado. Há riscos nessa prática (baixa ingestão/desnutrição/inadequação nutricional) sem benefícios significativamente comprovados. Ao dia de hoje, as diferentes sociedades cientificas desaconselham a prática de dietas de restrição por não existirem provas claras que estas tragam benefícios.
Existem “superalimentos” ou padrões alimentares que são especialmente benéficos para os sobreviventes de cancro?
O padrão tipo mediterrâneo controlado no valor energético parece ser o mais consensual.
Quais são os mitos mais comuns sobre alimentação e cancro que as pessoas ainda têm muito na cabeça?
Que o açúcar causa e ‘alimenta’ o cancro. Para além dessa ideia ser altamente redutora, a mesma só promove risco nutricional. Não fornecer açúcar ao nosso organismo, com vista a ‘não alimentar o cancro’ significaria não fornecer açúcar nas suas diferentes formas, e isso significa não consumir fruta, leite, legumes, cereais como arroz… Retirar estes alimentos do nosso dia a dia é um erro. Diferente é aconselharmos a excluir do nosso dia a dia o açúcar de adição, aquele que nós enquanto consumidores acrescentamos aos alimentos e bebidas ou aquele que é incorporado pela indústria alimentar. A restrição deste tipo de açúcar (o de adição) deverá ser um objetivo de todos naquilo que é uma dieta saudável e não só do doente oncológico.
O controlo do peso, manutenção do peso saudável, é um factor importante para não ter cancro e/ou não haver recidivas?
Dentro das variáveis relacionadas com a alimentação, a manutenção de um peso saudável é a recomendação com maior evidencia científica. Estudos mostram risco significativamente maior de cancro do esófago, pâncreas, fígado, colon e reto, mama, endométrio e do rim em pessoas com obesidade, havendo também suspeitas de ligação entre obesidade e cancro da boca, faringe, laringe, estomago, vesicula, ovário e próstata.
Pode dar alguns conselhos simples a mulheres na menopausa como prevenção do cancro?
Os conselhos assentam em princípios semelhantes aos da população em geral, e é importante perceber que o cancro não se desenvolve “em meia dúzia de dias”, são hábitos de uma vida que podem condicionar o nosso ambiente. Mas a realçar algo diria a manutenção ou alcance de um adequado peso corporal com pouca massa gorda. Em fase pós menopausa há alteração das necessidades metabólicas basais, e a acrescentar a isso há por vezes menor pratica de atividade física. O balanço energético torna-se por isso desfavorável, promovendo o ganho de peso.
É diferente a alimentação de um doente oncológico conforme o sexo ou idade?
Sim, tal como as necessidades de um indivíduo sem cancro são diferentes consoante sexo e idade.
