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“Quando falamos em sabotagem pensamos em alguém que atua para impedir um grupo ou outra pessoa de atingir o seu objetivo”, observa o psicólogo clínico Vítor Rodrigues. “Todos os seres que se autossabotam estão divididos internamente – na verdade, há uma parte de nós que não está de acordo com o objetivo. Por exemplo: nunca mais acabo o curso, começo a faltar, a protelar, porque tenho medo do desemprego, da mudança, de me sentir desafiado na minha capacidade. Para complicar, parte dos nossos elementos sabotadores estão abaixo da superfície, no inconsciente. Vêm de conflitos antigos, de coisas que correram mal; são zonas de que não gostamos e não queremos encarar, feridas que ficaram meio abertas, medos que não queremos admitir que temos. Para combater a autossabotagem, tudo isso tem que ser trazido à tona e aceite.”

A psicóloga Maria Palha, autora do livro ‘Uma Caixa de Primeiros Socorros das Emoções’ (Manuscrito) onde escreve sobre este e outros temas. “Quando há situações inesperadas na nossa vida temos que nos reorganizar e adaptar a estratégia a um novo contexto, e isso, por vezes, requer uma capacidade de resposta muito rápida. Se não tivermos um nível de autoconsciência grande para conhecermos as nossas capacidades, fragilidades, os nossos valores, vamos sentir-nos perdidos. Autossabotagem é uma fonte de mal-estar e não uma emoção. Ao longo da vida, muitos de nós deixam que várias fontes de mal-estar se apropriem de si e danifiquem a forma como nos vemos a nós próprios e a forma como nos relacionamos com os outros – quando sentimos que não somos suficientemente bons e merecedores e nos posicionamos de forma mais submissa, sem ser de igual para igual. Há ainda a questão do amor-próprio, a capacidade de conseguirmos reforçar fontes de bem-estar no dia a dia. Uma delas é o sistema de crenças – será que acredito que sou bom, que gosto de mim? Como promovo esse amor-próprio? Alguém que se valoriza terá uma capacidade pró-ativa para lidar com os desafios – e respostas mais rápidas a eles.”

A autoestima é um dos fatores principais nesta equação, mas não é o único, diz Vítor Rodrigues. “Há áreas, por vezes inconscientes, em que a razão é o medo de sofrer de novo, de ser mal avaliado. Mais do que buscar um estado de harmonia, muita gente procura, sobretudo, não estar mal. Isso dá asneira porque tem pouco a ver com a felicidade. Faz predominar como motivador o medo, a aversão. O medo acolhe-nos, não faz crescer nem encaminha.”

No extremo, há quem comece a “criar um bloqueio muito global, em que começa a rejeitar-se a si mesmo”, observa Vítor Rodrigues. “É quase como se uma pessoa se achasse um ‘vírus’ a combater. Isto pode vir de uma infância em que se sentiu profundamente rejeitada e se ‘aliou ao inimigo’. As pessoas que receberam mensagens repetidas como ‘és feia’ ou ‘não vales nada’, com o tempo interiorizam-nas e uma parte muito forte torna-se inimiga de si própria. Pensam: ‘estas pessoas que me humilharam tinham razão’.” Daí até à depressão e outros problemas de saúde mental é um pulo.

Mil e uma formas de se boicotar
Os relacionamentos são uma das áreas onde mais nos autossabotamos, confirma Vitor Rodrigues. “Uma parte de nós pode ter medo de um compromisso, de aprofundar a intimidade, de um relacionamento sexual diferente. Um bom exemplo disso são as pessoas que sistematicamente optam por ter o papel de amante. Dá um certo jeito porque evita um empenho numa relação assumida e profunda.”
Mas há outras formas de nos boicotarmos. “Nas dependências [álcool, drogas, jogo…] há uma parte de nós que é muito forte, quer obter um determinado prazer a curto prazo e que toma o freio nos dentes, sobrepondo-se ao resto. Está ligado a mecanismos cerebrais de recompensa. No trabalho, há quem lute contra uma promoção.”

E a procrastinação? Sobre ela já cantava António Variações: “é para amanhã/deixa lá, não faças hoje…” Procrastinar é a recusa em tomarmos uma decisão e agirmos logo, porque vai ser penoso ou chato ou porque a nossa motivação para o fazer é fraca. Como outras formas de sabotagem, esta pode fazer-nos entrar numa espiral de culpa: o que fiz com o meu dia? O que fiz eu com a minha vida?

Maria Palha aponta outra forma de autoboicote: a ruminação de pensamentos. “Chamo-lhes o ‘freak out do erro’. Parece que temos uma espécie de ‘treinador’ interno que nos faz olhar para nós próprios como alguém que se só faz coisas erradas. Há quem defenda que assim se autodesenvolve mais. Mas a pessoa fica tão focada no erro, que nem se dispõe sequer a tentar, porque falhar é algo que encara como inadmissível. Acaba por não atingir os seus sonhos, desnecessariamente. Há também a questão da vergonha: não tento porque me vou sentir muito mal se alguém me disser que aquilo está errado. Mas depois segue-se a frustração e, às tantas, gera-se um caldeirão de emoções mais difíceis.”

6 estratégias para sabotar a sabotadora que há em si

Não é do dia para a noite que aprendemos a parar de nos sabotar, mas com calma e algumas estratégias chegamos lá.

Treine a autoconsciência. “Primeiro, é preciso aprender a reconhecer o que é uma ameaça, quando nos sentimos mais frágeis, quais os defeitos que sentimos ter e, em vez de os olhar assim, vê-los como áreas a desenvolver”, diz Maria Palha. Depois há que perceber em que momento estas autossabotagens acontecem. “Ao percebermos que nos sabotamos quando temos um prazo de entrega mais apertado para um trabalho, por exemplo, podemos restringir o plano de ação. Uma vez restringida essa área, vamos conseguindo regular essa fonte de mal-estar e fazer com que faça o mínimo de estragos possível.”

Convença-se de que você é importante como qualquer outro. “Se virmos bem, em todas as formas de autossabotagem há uma coisa comum: a desvalorização de si próprio, seja na procrastinação crónica ou quando comemos demasiado”, observa Maria Palha. “Se acreditar que sou importante, isso estende-se a todas as áreas e não vou ter comportamentos, pensamentos e crenças que me autossabotem.”

Experimente a meditação. “Algumas formas de meditação, como o mindfulness, costumam produzir melhoras em estados depressivos, obsessivos e de ansiedade. Uma das razões é a pessoa treinar-se na capacidade de se observar a si mesma, suspendendo o julgamento”, diz Vítor Rodrigues.

Não entre em ‘modo catástrofe automático’. Temos tendência a fazê-lo sem repararmos, alerta o psicólogo. Imaginamos que os piores cenários possíveis vão mesmo acontecer. “O nosso aparelho emocional costuma não fazer o que a mente lhe diz, porque as nossas emoções trabalham muito com sensações e imagens. Se tenho uma reunião importante com o chefe e me encho de imagens catastróficas é como se estivesse na praia sempre a imaginar tsunamis. Quando entro para a reunião posso até já nem estar a pensar nelas… mas já estive. Temos que preparar as nossas próprias imagens mentais de maneira diferente.”

Não ponha a fasquia alta demais. Seja realista nas metas a que se propõe, aconselha Vítor Rodrigues. “Se sou professor e penso que só sou bom se for melhor que Martin Luther King na arte de discursar, já estou a criar condições de autodesvalorização e sentimentos de fracasso, mesmo que me felicitem. É preciso um cuidado grande com as mensagens que colocamos na nossa mente.”

Reaprenda a ter prazer. Pode parecer óbvio mas é um treino difícil, sobretudo para quem já entrou numa espiral de autodesvalorização grande, confirma Vítor Rodrigues. “É preciso reaprender a desfrutar dos pequenos momentos de prazer, dar valor às coisas realmente importantes, como termos saúde e capacidades mentais. Sabermos apreciar os outros, a nós próprios e à vida é muito importante.”

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